sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

O Som ao Redor | trilha sonora do cotidiano





Primeiro longa de ficção do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho (diretor dos premiados curtas Vinil Verde, Eletrodoméstica e Recife Frio), O Som ao Redor é um drama urbano com laivos de thriller. 

Dividida em três partes, a narrativa é aberta por uma seqüência de fotos em preto-e-branco de agudo realismo e melancolia, evidenciando o aparente contraste e a profunda permanência do modo de vida rural patriarcalista no cotidiano urbano atual de Recife.

Com uma mise en scène bastante cuidadosa, o filme apresenta clara predominância de cores neutras, tendendo ao branco, e uma profusão de corredores e espaços desocupados, remetendo ao vazio e à prosaicidade do cotidiano. Essa pode ser considerada a temática central do filme, e é notável o eco que ela encontra nas obras anteriores do diretor, em especial o curta Eletrodoméstica (2005).

Apontada pela crítica como um autêntico estudo de classe - no caso, a classe média urbana -, a obra é dotada de um humor irônico e mordaz em relação a essa classe, vista como excessivamente autocentrada, mergulhada no tédio e na falta de sentido de sua própria rotina diária. Nesse sentido, a recorrência de planos intermediados por grades transmite de forma sensível a situação de sufocamento e insegurança crônica autoinfligida por esse extrato da sociedade.


O filme apresenta um tom melancólico quase onipresente ao tratar do tema da demolição, literal e metafórica, da memória coletiva da cidade de Recife, expondo sutilmente os mecanismos de causa e conseqüência dessa dinâmica observável na grande maioria dos espaços urbanos na contemporaneidade.

A fotografia, a cargo de Pedro Sotero (Boa Sorte, Meu Amor), exprime com maestria a solidão e o desamparo do indivíduo nas metrópoles modernas, com seus planos simétricos recorrentes, mostrando personagens contrapostos à cidade, à paisagem urbana e voraz de Recife.


Os planos conjuntos citados e os freqüentes enquadramentos em plongée a partir de sacadas de edifícios, em diversos momentos captando mensagens de amor e desilusão deixadas no asfalto, remetem a um paralelo temático com o premiado longa Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual (2011), do cineasta argentino Gustavo Taretto. A angústia e a falta de sentido do cotidiano de uma grande cidade, temática comum aos dois filmes, parece cada vez mais recorrente no cinema contemporâneo, evidenciando a atuação da Arte como cartografia cultural.

A maior qualidade do longa é, contudo, justamente a trilha sonora: conduzindo cenas e moldando a percepção do espectador, por meio do direcionamento da atenção e do controle das expectativas, o som promove uma verdadeira ressignificação das cenas. A atenção especial dedicada à trilha instrumental e aos efeitos sonoros é capaz de conferir tal nível de tensão às cenas que momentos corriqueiros ou prosaicos do cotidiano parecem ter o poder de ameaçar a existência, carregando em si toda a tragicidade negada da vida.



ficha técnica

Título Original: O Som ao Redor
Ano: 2012
Direção: Kleber Mendonça Filho
Roteiro: Kleber Mendonça Filho
Gênero: drama; thriller
Duração: 131 min.
Origem: Brasil

sábado, 5 de outubro de 2013

Frances Ha | retrato de uma garota singular


Dirigido por Noah Baumbach (conhecido por suas colaborações com Wes Anderson em O Fantástico Sr. Raposo e A Vida Marinha de Steve Zissou), Frances Ha é, ao mesmo tempo, o retrato urbano de uma geração e do drama pessoal de Frances, personagem encantadora e desengonçada que se aproxima dos 30 anos e é assolada pela falta de perspectivas característica daquela zona cinza entre a adolescência e a maturidade - que parece se prolongar cada vez mais no mundo moderno.

O cinza - e a indefinição associada à cor -, aliás, é uma marca significativa do longa, presente não apenas na opção estética pela filmagem em preto-e-branco,  mas também no drama cotidiano de Frances: ela mora em NYC (cidade-sonho para uma vasta fatia dos jovens americanos), mas não tem um apartamento para chamar de seu; ela é assistente em uma companhia de dança, mas não é boa o bastante para ter destaque como dançarina.

A garota, no entanto, enfrenta cada revés com um otimismo inabalável. Ela é a própria encarnação da palavra inglesa serendipity: a habilidade de encontrar prazer, inspiração ou felicidade em qualquer fato que lhe ocorra, não importando o quão inesperado. Greta Gerwig, em sua atuação sublime, contribui de forma definitiva para a identificação do espectador com uma personagem tão singular.

O longa é marcado por diálogos agridoces, hilários e adoráveis - escritos em colaboração com a própria Greta Gerwig -, e se insere no cenário do cinema independente americano, com ecos da nouvelle vague e clara influência do mumblecore, movimento cinematográfico contemporâneo caracterizado pelo baixo-orçamento, diálogos improvisados e foco nas interações pessoais.

O grande mérito de Frances Ha reside na unidade alcançada, a fusão completa de forma e conteúdo: o filme assimila e absorve cada uma das singularidades da protagonista, tornando em forma aquilo que, de outro modo, ficaria restrito ao conteúdo. 

A cada tropeço de Frances, o desconcerto ou a comiseração experimentada pelo espectador não se prolonga por mais que um instante: ele é, quase imediatamente, impelido a sorrir pela própria personagem, que exercita incessantemente sua adorável capacidade de rir de si mesma. Uma narrativa contagiante e irresistível.



ficha técnica

Título Original: Frances Ha
Ano: 2012
Direção: Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach e Greta Gerwig
Gênero: drama; comédia
Duração: 86 min.
Origem: EUA

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Uma Família do Bagulho | quando o clichê ainda surpreende



Com roteiro de  Bob Fisher e Steve Faber (conhecido pela parceria em Penetras Bons de Bico),  o longa We’re the Millers - traduzido no Brasil para Família do Bagulho - é uma comédia road movie razoavelmente previsível que, ainda assim, surpreende.

Na trama, David Clark (Jason Sudeikis), um traficante pequeno, recebe a missão de contrabandear uma carga de marijuana do México até o Colorado, e decide criar uma família de mentira para usar como disfarce. Para tanto, recruta sua vizinha Rose (Jennifer Aniston), uma stripper falida, para fingir ser a esposa, e os “filhos” Kenny (Will Poulter) - um nerd ingênuo e introvertido - e Casey (Emma Roberts) - uma adolescente revoltada que fugiu de casa.

Transitando na fronteira entre a moral conservadora e a transgressão, o filme é uma sátira despretensiosa (e hilária) dos valores da família tradicional americana - seguida do esperado final feliz.

Uma das principais qualidades da obra reside na boa interação e sincronia entre o elenco. Sudeikis, famoso pelo programa de comédia Saturday Night Live, tem seu humor natural e sem afetações como um dos pilares do longa, garantindo um mínimo de plausibilidade às situações inverossímeis em que os personagens são mostrados. Aniston mantém seu padrão de qualidade usual na atuação. Apesar do uso de dublê de corpo nas cenas perigosas em que aparece de lingerie, a atriz mostra estar em ótima forma física - e ser a escolha ideal para o papel.

Merece destaque nesse sentido, também, a atuação de Emma Roberts e sua capacidade de dar dimensões reais ao estereótipo da adolescente problemática; ainda que não dote a personagem de uma profundidade psicológica notável, chega no mínimo a sugerir certa esfericidade.

O grande mérito do longa, contudo, reside no uso dos lugares-comuns na elaboração de piadas que, apesar da temática que por vezes toca as raias do kitsch, funcionam e surpreendem - graças principalmente ao domínio da linguagem de clichês e à boa construção dos punchlines.

O filme permite-se, em geral, considerável liberdade em relação à ditadura do politicamente correto sem cair no erro de tornar o “politicamente incorreto” um escudo para piadas ruins ou repetição irrefletida do óbvio. 

A obra conta ainda com um ótimo conjunto de referências à cultura pop - dos compositores Willie Nelson e Tom Waits ao vilão de quadrinhos Bane - que, somado à boa fotografia e à trilha sonora bem selecionada, contribuem para uma unidade estética do filme - que, apesar de inserir-se quase por completo em moldes pré-existentes, ainda se mostra capaz de oferecer doses de originalidade a um público mais exigente.





ficha técnica

Título Original: We’re the Millers
Ano: 2013
Direção: Rawson Marshall Thurber
Roteiro: Bob Fisher, Steve Faber
Gênero: comédia
Duração: 86 min.
Origem: EUA

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Moonrise Kingdom



Ambientado em uma ilha fictícia ao largo da costa da Nova Inglaterra nos anos 1960, Moonrise Kingdom, novo longa de Wes Anderson (escrito em colaboração com Roman Coppola), narra a história de um menino e uma menina com problemas de adaptação ao mundo que se apaixonam um pelo outro e decidem fugir, mobilizando toda a cidade nos esforços de busca pelos dois. 

Sam (Jared Gilman) e Suzy (Kara Hayward) - ele órfão e ela sufocada pela rotina entediante da casa de seus pais -, ambos com 12 anos e alma inquieta, provocam no expectador empatia imediata. A narrativa do filme  desenvolve-se em um tom aventureiro-juvenil comum aos filmes exibidos na sessão da tarde - e aos livros roubados da biblioteca que Suzy lê continuamente. O olhar de Wes Anderson, contudo, envolve o filme em uma forma peculiar, cujo perfeccionismo se faz notar na profusão de planos-detalhe de cartas e bilhetes e das próprias capas dos romances (fictícios) de Suzy. Além disso, o admirável talento do diretor dá a cada aspecto do conteúdo da narrativa significações múltiplas e transcendentes.

No processo da fuga, a ingenuidade que os garotos manifestam em sua percepção do mundo moldada pela descoberta do amor contagia pouco a pouco a melancólica e resignada existência dos demais habitantes da cidade, causando em alguma medida uma ruptura e um preenchimento de suas existências vazias.Utilizando-se de elementos estéticos que se tornaram quase que marcas registradas suas, Wes Anderson atingiu, em Moonrise Kingdom, simbiose entre  forma e conteúdo em um tal nível que só se observa verdadeiramente em obras-primas.

Como se nota em diversos outros filmes da carreira do diretor (tais como O Fantástico Sr. Raposo e Os Excêntricos Tenenbaums), há preponderância de planos simétricos, com cenários muito bem arranjados - que, sem perder a verossimilhança dentro da proposta, remetem imediatamente a ilustrações de livros infantis ou a uma casa de bonecas - e uma paleta de cores muito definida, composta de tons vibrantes, ainda que em nuances pastéis.

E aqui se observa mais um dos méritos do longa: o íntimo diálogo da fotografia (sob o comando de Robert D. Yeoman, colaborador habitual de Anderson) com o zeitgeist da década de 1960 - a opressão do ego encoberta pela perfeição estética, o desejo de liberdade dos jovens e a tentativa de sobreposição pela tradição das gerações anteriores.

A trilha sonora mostra-se também impecável, com destaque para a canção Le temps de l'amour, de Françoise Hardy - ícone da chanson francesa nos anos 1960 -, colocada quase que em primeiro plano na cena em que Sam e Suzy trocam um beijo. A canção traz em si a inocência e o deslumbramento da descoberta do amor que a narrativa explora tão bem.

Moonrise Kingdom tem, em suma, a perfeição plástica de um quadro, cujo conteúdo parece fundir-se com a moldura de modo a elevar o expectador a outras dimensões da percepção.

IMDb: 
http://www.imdb.com/title/tt1748122/

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada




O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, dirigido por Peter Jackson e estrelado por Martin Freeman, Ian McKellen e Richard Armitage, com a participação de Guillermo Del Toro na equipe de roteiristas, era talvez o filme mais esperado de 2012 - para logo transformar-se, após seu lançamento, na maior decepção em termos de adaptação semiótica e um notável desperdício de ideias, talentos, recursos e cenários.

O filme é o primeiro de uma trilogia baseada no livro O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, publicado originalmente em 1937. O livro conta a aventura de que Bilbo Bolseiro participou em sua juventude (60 anos antes do início de A Sociedade do Anel), uma jornada na qual ele ingressou por insistência do mago Gandalf (o sempre excelente Ian McKellen), e que consistia em acompanhar uma comitiva de 13 anões em sua busca por reconquistar o antigo reino sob a Montanha Solitária e o tesouro lá saqueado e guardado pelo dragão Smaug (que será interpretado por Benedict Cumberbatch).

Trata-se de um livro de tom leve, ingênuo, infantil de fato. Uma obra que de forma alguma se presta a uma adaptação fílmica que se aproxime da trilogia O Senhor dos Aneis em termos de monumentalidade - uma obra, aliás, que sequer justifica uma divisão em três partes.

É justamente nesse ponto que a proposta de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada começa a se perder: na hesitação de Peter Jackson entre fazer de fato uma adaptação cinematográfica do livro O Hobbit (objetivo cuja concretização requereria o corte de dois terços do tempo de duração e de metade dos personagens) e a tentação de fazer uma nova trilogia de dimensões épicas e histórias entrelaçadas como O Senhor dos Anéis - caso em que uma obra como O Silmarillion se prestaria melhor como base para o roteiro.

Do equívoco básico quanto ao tom da narrativa - responsável pela absoluta perda do caráter intimista de O Hobbit, um de seus principais trunfos - uma infinidade de erros derivam, na tentativa de preencher o vazio inevitavelmente decorrente da tentativa de adaptar uma obra a um molde que ela claramente não preenche.

Um dos mais desagradáveis desses erros consiste nos solavancos experimentados pelo espectador durante a transição entre cenas ou seqüências, fazendo com que muitas delas pareçam grosseiramente enxertadas na trama, ou apresentem um caráter excessiva e injustificadamente teatral. 

Exemplo desta última situação é a narrativa, por parte de um dos anões, da batalha de Thorin contra Azog, o orc pálido - e aqui se nota mais um dos problemas do filme: a inserção de personagens desnecessários, inexistentes na obra literária que o roteiro supostamente tomou por base, além de desprovidos de importância mesmo quando considerados no contexto geral da obra de Tolkien. A inserção de Azog é um claro sintoma da dificuldade enfrentada - voluntariamente, diga-se - por Jackson ao desmembrar um livro de ficção infantil em três partes de uma trilogia épica monumental; um tentativa (mal-sucedida) de incluir um vilão em um filme que carece de clímax ou desfecho, ao mesmo tempo em que segue uma estrutura em que tais elementos claramente se fazem necessários.

Outra seqüência que ilustra ambos os problemas mencionados é a que mostra Radagast, o Castanho (Sylvester McCoy), um dos magos da ordem de Gandalf, que, assim como Azog, foi retirado dos rodapés de apêndices a O Retorno do Rei, e, assim como Saruman e Galadriel - que fazem uma breve aparição, apenas para lembrar do quão aquém este filme está de suas aspirações de equivaler-se a O Senhor dos Anéis -, carece de uma introdução aceitável na trama, que torne plausível quaisquer de suas cenas.


É notável a capacidade de Jackson, em Uma Jornada Inesperada, de cometer equívocos até mesmo em pontos nos quais já havia demonstrado maestria em filmes anteriores; exemplo disso é a deterioração da qualidade da computação gráfica, que faz com que os wargs pareçam saídos de um videogame com gráficos duvidosos - para dizer o mínimo. Quanto ao tom das cenas de ação, não há como não aludir à frase do próprio Bilbo em A Sociedade do Aneleleita pela crítica como máxima aplicável ao filme como um todo: "esticado como... manteiga espalhada por um pedaço muito grande de pão". 

Há, é verdade, alguns pontos positivos no filme: a performance de Martin Freeman é espetacular, consistindo talvez no único vestígio do humor intimista e do tom inocente da obra literária; os cenários e locações apresentam o já esperado apelo visual, e a trilha sonora impressiona, em especial, pela inclusão das extraordinárias canções dos anões, que seguem admiravelmente a descrição que Tolkien fez delas nos livros.

Tais acertos, no entanto, além de escassos, parecem quase acidentais diante da profusão de equívocos. O filme é repleto de petiscos oferecidos aos órfãos de O Senhor dos Anéis, e tais coisas parecem de fato demonstrar eficácia junto a tais espectadores. Mas ao pressupor que isso seria o bastante para conquistar a apreciação do público geral, Peter Jackson estaria manifestando em si toda a inocência e ingenuidade que retirou do tom original de O Hobbit.

ficha técnica

Título Original: The Hobbit: An Unexpected Journey
Ano: 2012
Direção: Peter Jackson
Gênero: aventura; fantasia
Duração: 169 min.
Origem: EUA | Nova Zelândia

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Les Infidèles | crônicas de infidelidade masculina




Os Infiéis (no original: Les Infidèles; em inglês: The Players), lançado no Brasil em setembro deste ano, é uma série de curtas ou esquetes - geralmente cômicas, mas às vezes puxadas para o drama ou para o surreal - que retratam a infidelidade masculina pela perspectiva de oito diretores: Emmanuelle BercotFred Cavayé, Alex Courtès, Jean Dujardin (vencedor do Oscar 2012 de Melhor Ator pelo filme O Artista), Jan KounenMichel Hazanavicius (vencedor do Oscar 2012 de Melhor Diretor pelo filme O Artista), Eric Lartigau e Gilles Lellouche. 

Como seria de se esperar de um filme composto por curtas-metragens - que, apesar de estrelados majoritariamente pelos mesmos atores: Dujardin e Lellouche, estão ligados quase que unicamente por seu tema comum -, a qualidade dos segmentos varia enormemente (cada um foi escrito e dirigido por uma equipe diferente).

Dentre os pontos comuns, pode-se destacar a quase onipresença do humor, estilo comédia de erros, que geralmente se manifesta na quase absoluta falta de bom-senso da grande maioria dos personagens - os quais, devido a ocasionais exageros caricaturais, transformam-se por vezes, lamentavelmente, em personagens-tipo, com pouca ou nenhuma esfericidade. 

A principal falha do filme não é sua agressividade na abordagem do tema (embora certas seqüências ou cenas possam tornar-se desconfortáveis de observar), seu humor vulgar (por vezes bastante eficaz) nem seu suposto machismo - apontado por diversas organizações feministas, que conseguiram que os cartazes do filme fossem retirados de circulação na França. A falha fundamental está na freqüente carência de profundidade e coerência e na dolorosa irregularidade dos segmentos, que faz com que alguns curtas pareçam grosseiramente enxertados no conjunto.

Nem sempre é assim, contudo. Há, de fato, algumas reflexões profundas em aberto, inseridas esparsamente na trama... Alguns dos curtas se destacam por sua qualidade, em especial La Question, dirigido por Emmanuelle Bercot e protagonizado por Jean Dujardin e sua esposa Alexandra Lamy - a expressividade da atriz, muito bem explorada nos primeiríssimos planos que dominam o curta, salta aos olhos.

De resto, merecem elogios a sempre excelente atuação de Dujardin e Lellouche, a surpreendente qualidade da fotografia nos momentos em que o filme se leva a sério e, em especial, aquela que talvez seja a única qualidade técnica onipresente em toda a duração do filme: trilha sonora impecável (que, apesar de contar com artistas e bandas tão díspares quanto  Charles Trenet e 
The Black Keys, consegue manter uma admirável unicidade e conformidade às cenas).

Os Infiéis é, em suma, um filme ousado, provocador e, na maior parte do tempo, repugnantemente divertido, sendo porém, em última análise, muito mais superficial do que seria desejável. O filme, contudo, tem seu mérito - além dos diversos acertos mencionados - por ser uma tentativa, talvez consciente, de combater a onda do politicamente correto que paira sobre o cinema (não apenas na França) e ameaça a integridade desta que é possivelmente a nossa mais expressiva forma de arte.

Lista completa de curtas-metragens:
  • Le Prologue (Fred CAVAYÉ)
  • Bernard (Alex COURTÈS)
  • La Bonne Conscience (Michel HAZANAVICIUS)
  • Ultimate Fucking (Jan KOUNEN)
  • Lolita (Éric LARTIGAU)
  • Thibault (Alex COURTÈS)
  • Simon (Alex COURTÈS)
  • La Question (Emmanuelle BERCOT)
  • Les Infidèles Anonymes (Alex COURTÈS)
  • Las Vegas (DUJARDIN & LELLOUCHE)




quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Don't Trust the B---- in Apartment 23



Don't Trust the B---- in Apartment 23, também conhecida por Apartment 23 e Don't Trust the Bitch in Apartment 23 (este sendo, na verdade, o título inicial, antes de ter sido bowdlerizado após o piloto), foi lançada em abril de 2012 pela ABC e trás James Van Der Beek, o Dawson de Dawson's Creek, no papel de si próprio - uma versão alegadamente caricatural de si próprio.

A série, criada por Nahnatchka Khan, conta a história de June (Dreama Walker), uma garota séria, romântica e otimista - em suma, o estereótipo da garota do interior americano - que chega a Nova York com a promessa de um emprego em Wall Street e um apartamento custeado pela empresa. No entanto, logo em seu primeiro dia de trabalho, June descobre que a empresa foi condenada por fraude e o apartamento em que ela iria morar foi apreendido pelo governo.

Sem emprego e sem teto - e sem coragem de voltar a Indiana e desapontar seus pais, que não cansam de lembrar-lhe o quanto investiram nela -, June vê-se, depois de uma traumática busca por companheiros de apartamento, obrigada a dividir o teto com Chloe (Krysten Ritter),  uma it-girl nova-iorquina, sexy, instável e festeira, de conduta questionável e meios de vida idem - uma versão contemporânea da adorável Holly Golightly (interpretada por Audrey Hepburn no clássico Bonequinha de Luxo, de 1961).

A personagem de Chloe - cujo "melhor amigo gay hétero" é James Van Der Beek - é o ponto alto de Apartment 23, constituindo de fato o ponto central da trama - é a ela que é direcionada a alcunha "the bitch in apartment 23". As semelhanças com a personagem interpretada por Hepburn são inegáveis, e as frases marcantes ditas por ou sobre Holly são igualmente aplicáveis a Chloe. A tirada de Holly sobre a utilidade de ser doida varrida em um manicômio ("It's useful being top banana in the shock department!") parece ser quase um mantra para Chloe, e a retórica pergunta de O.J. Berman - "Ela é ou não uma impostora?" - não poderia ser mais adequada à personagem de Krysten Ritter.

Don't Trust the B---- in Apartment 23 é um seriado de comédia, exemplar do gênero sitcom (ainda que felizmente sem os "sacos de risadas"), com humor ácido e absurdo. Todos os elementos parecem integrados e funcionam impecavelmente. A hilária inversão de valores que se vê na conduta de Chloe, aliada ao seu quase completamente ausente senso de responsabilidade, são um bem-vindo tapa na cara do "politicamente correto" que se fez um dogma quase intocável da pós-modernidade. A série, no entanto, jamais incorre no erro de se levar a sério demais ou de se julgar algo diferente do que essencialmente é: um seriado de comédia. É dessa forma que deve ser assistida - quaisquer reflexões profundas são incidentais.

A primeira temporada da série, cujo finale foi ao ar em maio deste ano, é composta por sete episódios de 22 min (que, a propósito, parecem passar em 2 seg). A segunda temporada, iniciada no fim de outubro, encontra-se em andamento: conta com dois episódios lançados e mais onze previstos.


IMDb: http://www.imdb.com/title/tt1819509/