sábado, 5 de outubro de 2013

Frances Ha | retrato de uma garota singular


Dirigido por Noah Baumbach (conhecido por suas colaborações com Wes Anderson em O Fantástico Sr. Raposo e A Vida Marinha de Steve Zissou), Frances Ha é, ao mesmo tempo, o retrato urbano de uma geração e do drama pessoal de Frances, personagem encantadora e desengonçada que se aproxima dos 30 anos e é assolada pela falta de perspectivas característica daquela zona cinza entre a adolescência e a maturidade - que parece se prolongar cada vez mais no mundo moderno.

O cinza - e a indefinição associada à cor -, aliás, é uma marca significativa do longa, presente não apenas na opção estética pela filmagem em preto-e-branco,  mas também no drama cotidiano de Frances: ela mora em NYC (cidade-sonho para uma vasta fatia dos jovens americanos), mas não tem um apartamento para chamar de seu; ela é assistente em uma companhia de dança, mas não é boa o bastante para ter destaque como dançarina.

A garota, no entanto, enfrenta cada revés com um otimismo inabalável. Ela é a própria encarnação da palavra inglesa serendipity: a habilidade de encontrar prazer, inspiração ou felicidade em qualquer fato que lhe ocorra, não importando o quão inesperado. Greta Gerwig, em sua atuação sublime, contribui de forma definitiva para a identificação do espectador com uma personagem tão singular.

O longa é marcado por diálogos agridoces, hilários e adoráveis - escritos em colaboração com a própria Greta Gerwig -, e se insere no cenário do cinema independente americano, com ecos da nouvelle vague e clara influência do mumblecore, movimento cinematográfico contemporâneo caracterizado pelo baixo-orçamento, diálogos improvisados e foco nas interações pessoais.

O grande mérito de Frances Ha reside na unidade alcançada, a fusão completa de forma e conteúdo: o filme assimila e absorve cada uma das singularidades da protagonista, tornando em forma aquilo que, de outro modo, ficaria restrito ao conteúdo. 

A cada tropeço de Frances, o desconcerto ou a comiseração experimentada pelo espectador não se prolonga por mais que um instante: ele é, quase imediatamente, impelido a sorrir pela própria personagem, que exercita incessantemente sua adorável capacidade de rir de si mesma. Uma narrativa contagiante e irresistível.



ficha técnica

Título Original: Frances Ha
Ano: 2012
Direção: Noah Baumbach
Roteiro: Noah Baumbach e Greta Gerwig
Gênero: drama; comédia
Duração: 86 min.
Origem: EUA

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Uma Família do Bagulho | quando o clichê ainda surpreende



Com roteiro de  Bob Fisher e Steve Faber (conhecido pela parceria em Penetras Bons de Bico),  o longa We’re the Millers - traduzido no Brasil para Família do Bagulho - é uma comédia road movie razoavelmente previsível que, ainda assim, surpreende.

Na trama, David Clark (Jason Sudeikis), um traficante pequeno, recebe a missão de contrabandear uma carga de marijuana do México até o Colorado, e decide criar uma família de mentira para usar como disfarce. Para tanto, recruta sua vizinha Rose (Jennifer Aniston), uma stripper falida, para fingir ser a esposa, e os “filhos” Kenny (Will Poulter) - um nerd ingênuo e introvertido - e Casey (Emma Roberts) - uma adolescente revoltada que fugiu de casa.

Transitando na fronteira entre a moral conservadora e a transgressão, o filme é uma sátira despretensiosa (e hilária) dos valores da família tradicional americana - seguida do esperado final feliz.

Uma das principais qualidades da obra reside na boa interação e sincronia entre o elenco. Sudeikis, famoso pelo programa de comédia Saturday Night Live, tem seu humor natural e sem afetações como um dos pilares do longa, garantindo um mínimo de plausibilidade às situações inverossímeis em que os personagens são mostrados. Aniston mantém seu padrão de qualidade usual na atuação. Apesar do uso de dublê de corpo nas cenas perigosas em que aparece de lingerie, a atriz mostra estar em ótima forma física - e ser a escolha ideal para o papel.

Merece destaque nesse sentido, também, a atuação de Emma Roberts e sua capacidade de dar dimensões reais ao estereótipo da adolescente problemática; ainda que não dote a personagem de uma profundidade psicológica notável, chega no mínimo a sugerir certa esfericidade.

O grande mérito do longa, contudo, reside no uso dos lugares-comuns na elaboração de piadas que, apesar da temática que por vezes toca as raias do kitsch, funcionam e surpreendem - graças principalmente ao domínio da linguagem de clichês e à boa construção dos punchlines.

O filme permite-se, em geral, considerável liberdade em relação à ditadura do politicamente correto sem cair no erro de tornar o “politicamente incorreto” um escudo para piadas ruins ou repetição irrefletida do óbvio. 

A obra conta ainda com um ótimo conjunto de referências à cultura pop - dos compositores Willie Nelson e Tom Waits ao vilão de quadrinhos Bane - que, somado à boa fotografia e à trilha sonora bem selecionada, contribuem para uma unidade estética do filme - que, apesar de inserir-se quase por completo em moldes pré-existentes, ainda se mostra capaz de oferecer doses de originalidade a um público mais exigente.





ficha técnica

Título Original: We’re the Millers
Ano: 2013
Direção: Rawson Marshall Thurber
Roteiro: Bob Fisher, Steve Faber
Gênero: comédia
Duração: 86 min.
Origem: EUA