terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O Hobbit: Uma Jornada Inesperada




O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, dirigido por Peter Jackson e estrelado por Martin Freeman, Ian McKellen e Richard Armitage, com a participação de Guillermo Del Toro na equipe de roteiristas, era talvez o filme mais esperado de 2012 - para logo transformar-se, após seu lançamento, na maior decepção em termos de adaptação semiótica e um notável desperdício de ideias, talentos, recursos e cenários.

O filme é o primeiro de uma trilogia baseada no livro O Hobbit, de J. R. R. Tolkien, publicado originalmente em 1937. O livro conta a aventura de que Bilbo Bolseiro participou em sua juventude (60 anos antes do início de A Sociedade do Anel), uma jornada na qual ele ingressou por insistência do mago Gandalf (o sempre excelente Ian McKellen), e que consistia em acompanhar uma comitiva de 13 anões em sua busca por reconquistar o antigo reino sob a Montanha Solitária e o tesouro lá saqueado e guardado pelo dragão Smaug (que será interpretado por Benedict Cumberbatch).

Trata-se de um livro de tom leve, ingênuo, infantil de fato. Uma obra que de forma alguma se presta a uma adaptação fílmica que se aproxime da trilogia O Senhor dos Aneis em termos de monumentalidade - uma obra, aliás, que sequer justifica uma divisão em três partes.

É justamente nesse ponto que a proposta de O Hobbit: Uma Jornada Inesperada começa a se perder: na hesitação de Peter Jackson entre fazer de fato uma adaptação cinematográfica do livro O Hobbit (objetivo cuja concretização requereria o corte de dois terços do tempo de duração e de metade dos personagens) e a tentação de fazer uma nova trilogia de dimensões épicas e histórias entrelaçadas como O Senhor dos Anéis - caso em que uma obra como O Silmarillion se prestaria melhor como base para o roteiro.

Do equívoco básico quanto ao tom da narrativa - responsável pela absoluta perda do caráter intimista de O Hobbit, um de seus principais trunfos - uma infinidade de erros derivam, na tentativa de preencher o vazio inevitavelmente decorrente da tentativa de adaptar uma obra a um molde que ela claramente não preenche.

Um dos mais desagradáveis desses erros consiste nos solavancos experimentados pelo espectador durante a transição entre cenas ou seqüências, fazendo com que muitas delas pareçam grosseiramente enxertadas na trama, ou apresentem um caráter excessiva e injustificadamente teatral. 

Exemplo desta última situação é a narrativa, por parte de um dos anões, da batalha de Thorin contra Azog, o orc pálido - e aqui se nota mais um dos problemas do filme: a inserção de personagens desnecessários, inexistentes na obra literária que o roteiro supostamente tomou por base, além de desprovidos de importância mesmo quando considerados no contexto geral da obra de Tolkien. A inserção de Azog é um claro sintoma da dificuldade enfrentada - voluntariamente, diga-se - por Jackson ao desmembrar um livro de ficção infantil em três partes de uma trilogia épica monumental; um tentativa (mal-sucedida) de incluir um vilão em um filme que carece de clímax ou desfecho, ao mesmo tempo em que segue uma estrutura em que tais elementos claramente se fazem necessários.

Outra seqüência que ilustra ambos os problemas mencionados é a que mostra Radagast, o Castanho (Sylvester McCoy), um dos magos da ordem de Gandalf, que, assim como Azog, foi retirado dos rodapés de apêndices a O Retorno do Rei, e, assim como Saruman e Galadriel - que fazem uma breve aparição, apenas para lembrar do quão aquém este filme está de suas aspirações de equivaler-se a O Senhor dos Anéis -, carece de uma introdução aceitável na trama, que torne plausível quaisquer de suas cenas.


É notável a capacidade de Jackson, em Uma Jornada Inesperada, de cometer equívocos até mesmo em pontos nos quais já havia demonstrado maestria em filmes anteriores; exemplo disso é a deterioração da qualidade da computação gráfica, que faz com que os wargs pareçam saídos de um videogame com gráficos duvidosos - para dizer o mínimo. Quanto ao tom das cenas de ação, não há como não aludir à frase do próprio Bilbo em A Sociedade do Aneleleita pela crítica como máxima aplicável ao filme como um todo: "esticado como... manteiga espalhada por um pedaço muito grande de pão". 

Há, é verdade, alguns pontos positivos no filme: a performance de Martin Freeman é espetacular, consistindo talvez no único vestígio do humor intimista e do tom inocente da obra literária; os cenários e locações apresentam o já esperado apelo visual, e a trilha sonora impressiona, em especial, pela inclusão das extraordinárias canções dos anões, que seguem admiravelmente a descrição que Tolkien fez delas nos livros.

Tais acertos, no entanto, além de escassos, parecem quase acidentais diante da profusão de equívocos. O filme é repleto de petiscos oferecidos aos órfãos de O Senhor dos Anéis, e tais coisas parecem de fato demonstrar eficácia junto a tais espectadores. Mas ao pressupor que isso seria o bastante para conquistar a apreciação do público geral, Peter Jackson estaria manifestando em si toda a inocência e ingenuidade que retirou do tom original de O Hobbit.

ficha técnica

Título Original: The Hobbit: An Unexpected Journey
Ano: 2012
Direção: Peter Jackson
Gênero: aventura; fantasia
Duração: 169 min.
Origem: EUA | Nova Zelândia

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Les Infidèles | crônicas de infidelidade masculina




Os Infiéis (no original: Les Infidèles; em inglês: The Players), lançado no Brasil em setembro deste ano, é uma série de curtas ou esquetes - geralmente cômicas, mas às vezes puxadas para o drama ou para o surreal - que retratam a infidelidade masculina pela perspectiva de oito diretores: Emmanuelle BercotFred Cavayé, Alex Courtès, Jean Dujardin (vencedor do Oscar 2012 de Melhor Ator pelo filme O Artista), Jan KounenMichel Hazanavicius (vencedor do Oscar 2012 de Melhor Diretor pelo filme O Artista), Eric Lartigau e Gilles Lellouche. 

Como seria de se esperar de um filme composto por curtas-metragens - que, apesar de estrelados majoritariamente pelos mesmos atores: Dujardin e Lellouche, estão ligados quase que unicamente por seu tema comum -, a qualidade dos segmentos varia enormemente (cada um foi escrito e dirigido por uma equipe diferente).

Dentre os pontos comuns, pode-se destacar a quase onipresença do humor, estilo comédia de erros, que geralmente se manifesta na quase absoluta falta de bom-senso da grande maioria dos personagens - os quais, devido a ocasionais exageros caricaturais, transformam-se por vezes, lamentavelmente, em personagens-tipo, com pouca ou nenhuma esfericidade. 

A principal falha do filme não é sua agressividade na abordagem do tema (embora certas seqüências ou cenas possam tornar-se desconfortáveis de observar), seu humor vulgar (por vezes bastante eficaz) nem seu suposto machismo - apontado por diversas organizações feministas, que conseguiram que os cartazes do filme fossem retirados de circulação na França. A falha fundamental está na freqüente carência de profundidade e coerência e na dolorosa irregularidade dos segmentos, que faz com que alguns curtas pareçam grosseiramente enxertados no conjunto.

Nem sempre é assim, contudo. Há, de fato, algumas reflexões profundas em aberto, inseridas esparsamente na trama... Alguns dos curtas se destacam por sua qualidade, em especial La Question, dirigido por Emmanuelle Bercot e protagonizado por Jean Dujardin e sua esposa Alexandra Lamy - a expressividade da atriz, muito bem explorada nos primeiríssimos planos que dominam o curta, salta aos olhos.

De resto, merecem elogios a sempre excelente atuação de Dujardin e Lellouche, a surpreendente qualidade da fotografia nos momentos em que o filme se leva a sério e, em especial, aquela que talvez seja a única qualidade técnica onipresente em toda a duração do filme: trilha sonora impecável (que, apesar de contar com artistas e bandas tão díspares quanto  Charles Trenet e 
The Black Keys, consegue manter uma admirável unicidade e conformidade às cenas).

Os Infiéis é, em suma, um filme ousado, provocador e, na maior parte do tempo, repugnantemente divertido, sendo porém, em última análise, muito mais superficial do que seria desejável. O filme, contudo, tem seu mérito - além dos diversos acertos mencionados - por ser uma tentativa, talvez consciente, de combater a onda do politicamente correto que paira sobre o cinema (não apenas na França) e ameaça a integridade desta que é possivelmente a nossa mais expressiva forma de arte.

Lista completa de curtas-metragens:
  • Le Prologue (Fred CAVAYÉ)
  • Bernard (Alex COURTÈS)
  • La Bonne Conscience (Michel HAZANAVICIUS)
  • Ultimate Fucking (Jan KOUNEN)
  • Lolita (Éric LARTIGAU)
  • Thibault (Alex COURTÈS)
  • Simon (Alex COURTÈS)
  • La Question (Emmanuelle BERCOT)
  • Les Infidèles Anonymes (Alex COURTÈS)
  • Las Vegas (DUJARDIN & LELLOUCHE)




quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Don't Trust the B---- in Apartment 23



Don't Trust the B---- in Apartment 23, também conhecida por Apartment 23 e Don't Trust the Bitch in Apartment 23 (este sendo, na verdade, o título inicial, antes de ter sido bowdlerizado após o piloto), foi lançada em abril de 2012 pela ABC e trás James Van Der Beek, o Dawson de Dawson's Creek, no papel de si próprio - uma versão alegadamente caricatural de si próprio.

A série, criada por Nahnatchka Khan, conta a história de June (Dreama Walker), uma garota séria, romântica e otimista - em suma, o estereótipo da garota do interior americano - que chega a Nova York com a promessa de um emprego em Wall Street e um apartamento custeado pela empresa. No entanto, logo em seu primeiro dia de trabalho, June descobre que a empresa foi condenada por fraude e o apartamento em que ela iria morar foi apreendido pelo governo.

Sem emprego e sem teto - e sem coragem de voltar a Indiana e desapontar seus pais, que não cansam de lembrar-lhe o quanto investiram nela -, June vê-se, depois de uma traumática busca por companheiros de apartamento, obrigada a dividir o teto com Chloe (Krysten Ritter),  uma it-girl nova-iorquina, sexy, instável e festeira, de conduta questionável e meios de vida idem - uma versão contemporânea da adorável Holly Golightly (interpretada por Audrey Hepburn no clássico Bonequinha de Luxo, de 1961).

A personagem de Chloe - cujo "melhor amigo gay hétero" é James Van Der Beek - é o ponto alto de Apartment 23, constituindo de fato o ponto central da trama - é a ela que é direcionada a alcunha "the bitch in apartment 23". As semelhanças com a personagem interpretada por Hepburn são inegáveis, e as frases marcantes ditas por ou sobre Holly são igualmente aplicáveis a Chloe. A tirada de Holly sobre a utilidade de ser doida varrida em um manicômio ("It's useful being top banana in the shock department!") parece ser quase um mantra para Chloe, e a retórica pergunta de O.J. Berman - "Ela é ou não uma impostora?" - não poderia ser mais adequada à personagem de Krysten Ritter.

Don't Trust the B---- in Apartment 23 é um seriado de comédia, exemplar do gênero sitcom (ainda que felizmente sem os "sacos de risadas"), com humor ácido e absurdo. Todos os elementos parecem integrados e funcionam impecavelmente. A hilária inversão de valores que se vê na conduta de Chloe, aliada ao seu quase completamente ausente senso de responsabilidade, são um bem-vindo tapa na cara do "politicamente correto" que se fez um dogma quase intocável da pós-modernidade. A série, no entanto, jamais incorre no erro de se levar a sério demais ou de se julgar algo diferente do que essencialmente é: um seriado de comédia. É dessa forma que deve ser assistida - quaisquer reflexões profundas são incidentais.

A primeira temporada da série, cujo finale foi ao ar em maio deste ano, é composta por sete episódios de 22 min (que, a propósito, parecem passar em 2 seg). A segunda temporada, iniciada no fim de outubro, encontra-se em andamento: conta com dois episódios lançados e mais onze previstos.


IMDb: http://www.imdb.com/title/tt1819509/


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

007 - Operação Skyfall | jogo de luz e sombra





007 - Operação Skyfalldirigido por Sam Mendes, é o 23º filme da franquia 007 (agente secreto britânico criado por Ian Fleming, cujos livros inauguraram na Grã-Bretanha dos anos 1950/60 uma febre comparável à beatlemania), iniciada com 007 Contra o Satânico Dr. No (1962), que este mês completa 50 anos.

Apesar de sua história ter tido início, a rigor, em 007 - Cassino Royale, que data de 2006 e é o primeiro filme da franquia com Daniel Craig no papel, o James Bond mostrado em 007 - Operação Skyfall parece conter em si a memória de toda a saga de 007.

De toda a memorabilia apresentada no filme, sobressaem as referências de Bond e M a equipamentos icônicos usados à exaustão na época de Sean Connery e Roger Moore - como canetas explosivas e assentos ejetores -, além de cenários clássicos como os subterrâneos de Londres, a sala com revestimento em couro de M e personagens-símbolo como a secretária Moneypenny; elementos que, de há tanto tempo sem menção alguma, adquirem um caráter quase que de easter eggs nesse 23º filme de Bond - e deliciam os fãs da franquia.

O discurso autorreferente de Operação Skyfall não se restringe, no entanto, a elementos periféricos à trama; está, na verdade, inserido no tema central desenvolvido no filme: fundamentalmente, uma discussão sobre a obsolescência do serviço secreto britânico (MI6), da espionagem e do próprio 007 individualmente e enquanto personagem simbólico.

Durante todos os 143 min de filme, o discurso dialético do velho vs. novo fica evidente - inclusive na simbologia visual usada. Nota-se um uso constante do contraluz, criando contrastes marcados entre branco-e-preto e causando sensações que remetem ao chiaroscuro. Tal recurso é o elemento central da fantástica seqüência de luta em Xangai, iluminada apenas pelos outdoors dos arranha-céus - um espetáculo de tirar o fôlego, em que se evidencia toda a excelência da direção fotográfica de Operação Skyfall.

Tais temáticas são simbolicamente abordadas por Q - não por coincidência, interpretado por um ator bem mais jovem, Ben Whishaw - em seu primeiro encontro com James Bond, quando ambos estão sentados lado a lado num museu, diante de um quadro de um barco de guerra sendo rebocado. Q comenta sobre a melancolia da finitude das coisas, enquanto Bond enxerga apenas "um navio grande" (a bloody big ship).

O agente secreto parece de início um tanto perdido quanto ao seu papel; apresenta-se para o serviço, mas não sabe responder a que veio. Do mesmo modo o público parece ter estado incerto em relação aos mais recentes filmes de 007 até o advento da seqüência iniciada com Cassino Royale.  Longe de merecerem qualquer crítica de caráter técnico, relativa ao elenco ou à execução, as películas de James Bond lançadas nos anos 1990 (com Pierce Brosnan no papel do agente secreto) parecem sofrer de um anacronismo arraigado e inescapável. 

Que direção a espionagem - e, conseqüentemente, os filmes de espionagem - deveriam seguir para escapar à obsolescência que parece inevitável diante do fim da Guerra Fria? 

O discurso de M (Judi Dench, sempre excelente no papel) no Parlamento - uma das mais emblemáticas cenas de Operação Skyfall - elucida brilhantemente a questão: os inimigos não são mais nações, não há mais um povo ou uma bandeira a se temer. Longe da clareza vivenciada nos tempos da Guerra Fria, que permitiam aos filmes um simplismo - que hoje pareceria aterrador - capaz de demonizar todo um povo ou nação, com o fim da URSS, a rendição da China ao capitalismo de mercado e a iminente derrocada dos regimes comunistas de Cuba e da Coreia do Norte,  os inimigos do presente são organizações terroristas que agem nas sombras, aproveitando-se da globalização de tal forma a dificilmente poderem ser identificadas com uma nação em particular.

Com Operação Skyfall, 007 retorna às origens e deixa provado, de forma definitiva, seu legado histórico inestimável. Em contraposição, parece cada vez mais distante de transformar-se em uma estática peça de museu. Ian Fleming certamente aprovaria.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt1074638/

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Girls | retrato de uma geração





Comparada diversas vezes a Sex & the City, a nova aposta da HBO - que estreou no Brasil em julho - compartilha com a série de Carrie Bradshaw pouco ou nada além do cenário: quatro amigas tentando levar a vida em Nova York.

Criada, dirigida e protagonizada por Lena Dunham, nova-iorquina de apenas 26 anos que também dirigiu o filme independente Tiny Furniture, Girls apresenta um conjunto de personagens inteiramente diferentes daquelas mostradas em Sex & the City - diferentes também, provavelmente, de tudo o que se tem visto em séries e sitcoms até agora.

Além da fotografia e do figurino irretocáveis, além da trilha sonora que expressa à perfeição a alternância entre a tênue melancolia e os momentos pontuais de euforia que perpassam o ânimo das personagens, o destaque da série vai para a personagem da própria Lena Dunham, chamada Hanna Horvath: uma aspirante a escritora de 20 e poucos anos vivendo naquela desconfortável zona cinza entre a adolescência e a maturidade. Um dos personagens, em uma frase épica de Girls, diz"não é vida adulta se seus pais ainda pagam sua conta de telefone". Em defesa da personagem-alvo é dito que ela paga metade da sua conta de telefone - o que dificilmente poderia ser mais simbólico.

Recém-formada em um mundo em crise, vivendo a tragédia da pós-modernidade - marcada justamente pelo vazio existencial causado pela falta de problemas reais, pela alienação forçada em vista do anacronismo de qualquer tipo de engajamento ideológico -, Hanna (por cujo papel Lena Dunham foi indicada ao Emmy) é o retrato individual de uma geração estagnada e improdutiva, consumida pela angústia da falta de objetivos ou perspectivas e consumidora compulsiva de diazepam e outros compostos.

O talento de Lena Dunham para retratar a angústia dessa geração é inegável. Apesar de Tiny Furniture (2010) ter resultado em um filme tão vazio quanto a vida e as perspectivas de sua personagem principal, um filme ao qual o espectador segue assistindo por inércia à espera de que algo aconteça (ainda que esse efeito seja uma proposital referência ao estado de ânimo da protagonista), percebe-se que a linguagem e genialidade que se veriam em Girls dois anos mais tarde já estavam sendo constituídas. São duas obras sobre o mesmo tema, das quais se pode afirmar que Tiny Furniture é claramente o rascunho e Girls é a obra final - uma obra-prima, a propósito.

Após sua estreia, este ano, Girls foi indicada a cinco Emmy, dos quais levou um - não por acaso, pelo elenco. A segunda temporada da série está prevista para janeiro de 2013.

Além disso, Lena Dunham fechou contrato no início deste mês com a editora americana Random House para a publicação de seu primeiro livro, Not That Kind of Girl: A Young Woman Tells You What She's Learned ("Não aquele tipo de garota: uma jovem conta a você o que ela aprendeu", em tradução direta). Ao que parece, Lena é uma bem-vinda exceção aos males do (nosso) século - que ela narra de maneira tão sublime.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Schiaparelli & Prada: Impossible Conversations




Uma série de oito curtas de (aprox.) 2 min dirigidos por Baz Luhrmann registrando trechos de uma conversa imaginária entre Elsa Schiaparelli e Miuccia Prada à mesa de jantar. Exibidos em maio de 2012, os curtas foram produzidos como parte da série Impossible Conversations do Metropolitan Museum of Art, em Nova York. 

Elsa Schiaparelli e Miuccia Prada, duas lendas da moda separadas pelo tempo - os anos 1930 e os dias atuais, respectivamente - mas unidas por inumeráveis proximidades criativas e conceituais, discutem à mesa variados assuntos desde suas trajetórias pessoais, suas preferências criativas até o papel da moda na identidade feminina.

Filmadas em um cenário sombrio, apenas as figuras de Judy Davis, interpretando Elsa Schiaparelli - estilista italiana nascida em 1890 famosa por suas criações em parceria com Salvador Dalí e Jean Cocteau -, e Miuccia Prada - estilista italiana contemporânea nascida em Milão, cuja grife foi responsável por diversas revoluções no prêt-à-porter -, interpretando a si própria, se destacam da penumbra - talvez como uma metáfora do papel transformador e elucidativo que ambas tiveram na história da moda.

Diretor dos longas Moulin Rouge, Romeu+Julieta e da refilmagem (em fase de pós-produção) do romance O Grande Gatsby, Baz Luhrmann realizou um trabalho impecável na produção desses curtas em tom de documentário confessional. A proposta, ainda que seu caráter soe fantástico em princípio, é executada com tal maestria que exige o mínimo da chamada suspensão de descrença, a ponto de os curtas exibirem em incontáveis momentos um ar do mais puro realismo documental - ainda que sem perder o humor espontâneo que marca a personalidade das duas estilistas, especialmente de Schiaparelli.

Ao fim do curta chamado Ugly Chic, Miuccia Prada menciona a globalização - ao que Elsa Schiaparelli responde, "O que é globalização?". E só então o espectador se dá conta do abismo temporal que separa as duas mulheres - e que justifica o título de Impossible Conversations -, tal é a proximidade criativa entre elas e a naturalidade com que fui a conversa.

Designers conhecidas por suas deliberadas provocações que tendiam a confrontar as convenções estabelecidas de beleza, glamour e feminilidade, o maior legado de Schiaparelli e Prada é, possivelmente, a completa subversão e conseqüente fluidez dos conceitos de bom e mau gosto imperantes na contemporaneidade.

Segue a lista dos curta-metragens, com seus respectivos links (com legenda em inglês):





Schiaparelli & Prada: Impossible Conversations
Ugly Chic
Naïf Chic


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Revenge | épico de vingança




Revenge
 é para quem gosta de drama - como na definição do dicionário Houaiss, uma peça que representa ações da vida cotidiana permeadas por conflitos, tumulto e agitação. Em poucas palavras, é nisso que consiste a série: um bom drama, um épico de vingança no melhor estilo Dumas.

A plot: Emily Thorne (Emily VanCamp) aluga uma casa nos Hamptons por uma estação, aparentando ter nenhum outro objetivo além de aproveitar o verão. Logo se torna claro, entretando, que há muitas outras intenções ocultas sob sua visita. Seu verdadeiro nome é Amanda Clarke, e seu pai, David, de quem foi separada aos nove anos, foi condenado a prisão perpétua e assassinado por um crime que não cometeu, vítima de uma conspiração encabeçada pela família Grayson. 

Amanda - uma adorável sociopata, tão reservada e imprevisível que cada novo aspecto de sua personalidade ou de seu passado surpreende o espectador tanto quanto aos seus inimigos - voltou em busca de vingança, auxiliada por Nolan Ross (Gabriel Mann), gênio da tecnologia com problemas de socialização, cuja lealdade a David Clarke fez com que tomasse para si a tarefa de proteger Amanda e ajudá-la em seus planos.

A série, criada por Mike Kelley em 2011 e exibida pela ABC, é um sucesso de público e crítica, tendo sido comparada a uma versão moderna de O Conde de Montecristo

Apesar de fazer jus ao gênero série-novela americana, em cuja narrativa prevalecem as intrigas e reviravoltas do enredo sobre a estrutura e os tipos individuais, o ponto forte de Revenge está na construção dos personagens. 

Desconstruindo a tendência geral do espectador a sentir pena pela protagonista e experimentar repulsa por seus inimigos, a série demonstra extrema habilidade para criar laços de empatia entre espectador e personagens, e ainda assim surpreendê-lo a cada episódio com uma nova atitude inesperada - ou aparentemente injustificável - por parte dos últimos, para em seguida apresentar-lhes os motivos e reiniciar o ciclo. 

Ao mesmo tempo, apresentando as ações calculadas de Amanda/Emily em sua busca cega por vingança e justiça, é dada ao espectador a oportunidade de se indagar se tanto pragmatismo não torna a protagonista um tanto mais parecida com seus inimigos do que ela gostaria de cogitar.

Trata-se de uma série impecável, tanto do ponto de vista dos atores quanto da estrutura, sem mencionar os cenários extremamente bem escolhidos e a trilha sonora deliciosamente adequada. A seqüência que fecha o season finale da 1ª temporada é de tirar o fôlego. Em suma, a série atinge padrões de qualidade que não se viam no gênero desde Mildred Pierce. E a 2ª temporada (em andamento) promete não desapontar.