Comparada diversas vezes a Sex & the City, a nova aposta da HBO - que estreou no Brasil em julho - compartilha com a série de Carrie Bradshaw pouco ou nada além do cenário: quatro amigas tentando levar a vida em Nova York.
Criada, dirigida e protagonizada por Lena Dunham, nova-iorquina de apenas 26 anos que também dirigiu o filme independente Tiny Furniture, Girls apresenta um conjunto de personagens inteiramente diferentes daquelas mostradas em Sex & the City - diferentes também, provavelmente, de tudo o que se tem visto em séries e sitcoms até agora.
Além da fotografia e do figurino irretocáveis, além da trilha sonora que expressa à perfeição a alternância entre a tênue melancolia e os momentos pontuais de euforia que perpassam o ânimo das personagens, o destaque da série vai para a personagem da própria Lena Dunham, chamada Hanna Horvath: uma aspirante a escritora de 20 e poucos anos vivendo naquela desconfortável zona cinza entre a adolescência e a maturidade. Um dos personagens, em uma frase épica de Girls, diz: "não é vida adulta se seus pais ainda pagam sua conta de telefone". Em defesa da personagem-alvo é dito que ela paga metade da sua conta de telefone - o que dificilmente poderia ser mais simbólico.
Recém-formada em um mundo em crise, vivendo a tragédia da pós-modernidade - marcada justamente pelo vazio existencial causado pela falta de problemas reais, pela alienação forçada em vista do anacronismo de qualquer tipo de engajamento ideológico -, Hanna (por cujo papel Lena Dunham foi indicada ao Emmy) é o retrato individual de uma geração estagnada e improdutiva, consumida pela angústia da falta de objetivos ou perspectivas e consumidora compulsiva de diazepam e outros compostos.
O talento de Lena Dunham para retratar a angústia dessa geração é inegável. Apesar de Tiny Furniture (2010) ter resultado em um filme tão vazio quanto a vida e as perspectivas de sua personagem principal, um filme ao qual o espectador segue assistindo por inércia à espera de que algo aconteça (ainda que esse efeito seja uma proposital referência ao estado de ânimo da protagonista), percebe-se que a linguagem e genialidade que se veriam em Girls dois anos mais tarde já estavam sendo constituídas. São duas obras sobre o mesmo tema, das quais se pode afirmar que Tiny Furniture é claramente o rascunho e Girls é a obra final - uma obra-prima, a propósito.
Após sua estreia, este ano, Girls foi indicada a cinco Emmy, dos quais levou um - não por acaso, pelo elenco. A segunda temporada da série está prevista para janeiro de 2013.
Além disso, Lena Dunham fechou contrato no início deste mês com a editora americana Random House para a publicação de seu primeiro livro, Not That Kind of Girl: A Young Woman Tells You What She's Learned ("Não aquele tipo de garota: uma jovem conta a você o que ela aprendeu", em tradução direta). Ao que parece, Lena é uma bem-vinda exceção aos males do (nosso) século - que ela narra de maneira tão sublime.

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