quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Les Infidèles | crônicas de infidelidade masculina




Os Infiéis (no original: Les Infidèles; em inglês: The Players), lançado no Brasil em setembro deste ano, é uma série de curtas ou esquetes - geralmente cômicas, mas às vezes puxadas para o drama ou para o surreal - que retratam a infidelidade masculina pela perspectiva de oito diretores: Emmanuelle BercotFred Cavayé, Alex Courtès, Jean Dujardin (vencedor do Oscar 2012 de Melhor Ator pelo filme O Artista), Jan KounenMichel Hazanavicius (vencedor do Oscar 2012 de Melhor Diretor pelo filme O Artista), Eric Lartigau e Gilles Lellouche. 

Como seria de se esperar de um filme composto por curtas-metragens - que, apesar de estrelados majoritariamente pelos mesmos atores: Dujardin e Lellouche, estão ligados quase que unicamente por seu tema comum -, a qualidade dos segmentos varia enormemente (cada um foi escrito e dirigido por uma equipe diferente).

Dentre os pontos comuns, pode-se destacar a quase onipresença do humor, estilo comédia de erros, que geralmente se manifesta na quase absoluta falta de bom-senso da grande maioria dos personagens - os quais, devido a ocasionais exageros caricaturais, transformam-se por vezes, lamentavelmente, em personagens-tipo, com pouca ou nenhuma esfericidade. 

A principal falha do filme não é sua agressividade na abordagem do tema (embora certas seqüências ou cenas possam tornar-se desconfortáveis de observar), seu humor vulgar (por vezes bastante eficaz) nem seu suposto machismo - apontado por diversas organizações feministas, que conseguiram que os cartazes do filme fossem retirados de circulação na França. A falha fundamental está na freqüente carência de profundidade e coerência e na dolorosa irregularidade dos segmentos, que faz com que alguns curtas pareçam grosseiramente enxertados no conjunto.

Nem sempre é assim, contudo. Há, de fato, algumas reflexões profundas em aberto, inseridas esparsamente na trama... Alguns dos curtas se destacam por sua qualidade, em especial La Question, dirigido por Emmanuelle Bercot e protagonizado por Jean Dujardin e sua esposa Alexandra Lamy - a expressividade da atriz, muito bem explorada nos primeiríssimos planos que dominam o curta, salta aos olhos.

De resto, merecem elogios a sempre excelente atuação de Dujardin e Lellouche, a surpreendente qualidade da fotografia nos momentos em que o filme se leva a sério e, em especial, aquela que talvez seja a única qualidade técnica onipresente em toda a duração do filme: trilha sonora impecável (que, apesar de contar com artistas e bandas tão díspares quanto  Charles Trenet e 
The Black Keys, consegue manter uma admirável unicidade e conformidade às cenas).

Os Infiéis é, em suma, um filme ousado, provocador e, na maior parte do tempo, repugnantemente divertido, sendo porém, em última análise, muito mais superficial do que seria desejável. O filme, contudo, tem seu mérito - além dos diversos acertos mencionados - por ser uma tentativa, talvez consciente, de combater a onda do politicamente correto que paira sobre o cinema (não apenas na França) e ameaça a integridade desta que é possivelmente a nossa mais expressiva forma de arte.

Lista completa de curtas-metragens:
  • Le Prologue (Fred CAVAYÉ)
  • Bernard (Alex COURTÈS)
  • La Bonne Conscience (Michel HAZANAVICIUS)
  • Ultimate Fucking (Jan KOUNEN)
  • Lolita (Éric LARTIGAU)
  • Thibault (Alex COURTÈS)
  • Simon (Alex COURTÈS)
  • La Question (Emmanuelle BERCOT)
  • Les Infidèles Anonymes (Alex COURTÈS)
  • Las Vegas (DUJARDIN & LELLOUCHE)




quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Don't Trust the B---- in Apartment 23



Don't Trust the B---- in Apartment 23, também conhecida por Apartment 23 e Don't Trust the Bitch in Apartment 23 (este sendo, na verdade, o título inicial, antes de ter sido bowdlerizado após o piloto), foi lançada em abril de 2012 pela ABC e trás James Van Der Beek, o Dawson de Dawson's Creek, no papel de si próprio - uma versão alegadamente caricatural de si próprio.

A série, criada por Nahnatchka Khan, conta a história de June (Dreama Walker), uma garota séria, romântica e otimista - em suma, o estereótipo da garota do interior americano - que chega a Nova York com a promessa de um emprego em Wall Street e um apartamento custeado pela empresa. No entanto, logo em seu primeiro dia de trabalho, June descobre que a empresa foi condenada por fraude e o apartamento em que ela iria morar foi apreendido pelo governo.

Sem emprego e sem teto - e sem coragem de voltar a Indiana e desapontar seus pais, que não cansam de lembrar-lhe o quanto investiram nela -, June vê-se, depois de uma traumática busca por companheiros de apartamento, obrigada a dividir o teto com Chloe (Krysten Ritter),  uma it-girl nova-iorquina, sexy, instável e festeira, de conduta questionável e meios de vida idem - uma versão contemporânea da adorável Holly Golightly (interpretada por Audrey Hepburn no clássico Bonequinha de Luxo, de 1961).

A personagem de Chloe - cujo "melhor amigo gay hétero" é James Van Der Beek - é o ponto alto de Apartment 23, constituindo de fato o ponto central da trama - é a ela que é direcionada a alcunha "the bitch in apartment 23". As semelhanças com a personagem interpretada por Hepburn são inegáveis, e as frases marcantes ditas por ou sobre Holly são igualmente aplicáveis a Chloe. A tirada de Holly sobre a utilidade de ser doida varrida em um manicômio ("It's useful being top banana in the shock department!") parece ser quase um mantra para Chloe, e a retórica pergunta de O.J. Berman - "Ela é ou não uma impostora?" - não poderia ser mais adequada à personagem de Krysten Ritter.

Don't Trust the B---- in Apartment 23 é um seriado de comédia, exemplar do gênero sitcom (ainda que felizmente sem os "sacos de risadas"), com humor ácido e absurdo. Todos os elementos parecem integrados e funcionam impecavelmente. A hilária inversão de valores que se vê na conduta de Chloe, aliada ao seu quase completamente ausente senso de responsabilidade, são um bem-vindo tapa na cara do "politicamente correto" que se fez um dogma quase intocável da pós-modernidade. A série, no entanto, jamais incorre no erro de se levar a sério demais ou de se julgar algo diferente do que essencialmente é: um seriado de comédia. É dessa forma que deve ser assistida - quaisquer reflexões profundas são incidentais.

A primeira temporada da série, cujo finale foi ao ar em maio deste ano, é composta por sete episódios de 22 min (que, a propósito, parecem passar em 2 seg). A segunda temporada, iniciada no fim de outubro, encontra-se em andamento: conta com dois episódios lançados e mais onze previstos.


IMDb: http://www.imdb.com/title/tt1819509/