quarta-feira, 31 de outubro de 2012

007 - Operação Skyfall | jogo de luz e sombra





007 - Operação Skyfalldirigido por Sam Mendes, é o 23º filme da franquia 007 (agente secreto britânico criado por Ian Fleming, cujos livros inauguraram na Grã-Bretanha dos anos 1950/60 uma febre comparável à beatlemania), iniciada com 007 Contra o Satânico Dr. No (1962), que este mês completa 50 anos.

Apesar de sua história ter tido início, a rigor, em 007 - Cassino Royale, que data de 2006 e é o primeiro filme da franquia com Daniel Craig no papel, o James Bond mostrado em 007 - Operação Skyfall parece conter em si a memória de toda a saga de 007.

De toda a memorabilia apresentada no filme, sobressaem as referências de Bond e M a equipamentos icônicos usados à exaustão na época de Sean Connery e Roger Moore - como canetas explosivas e assentos ejetores -, além de cenários clássicos como os subterrâneos de Londres, a sala com revestimento em couro de M e personagens-símbolo como a secretária Moneypenny; elementos que, de há tanto tempo sem menção alguma, adquirem um caráter quase que de easter eggs nesse 23º filme de Bond - e deliciam os fãs da franquia.

O discurso autorreferente de Operação Skyfall não se restringe, no entanto, a elementos periféricos à trama; está, na verdade, inserido no tema central desenvolvido no filme: fundamentalmente, uma discussão sobre a obsolescência do serviço secreto britânico (MI6), da espionagem e do próprio 007 individualmente e enquanto personagem simbólico.

Durante todos os 143 min de filme, o discurso dialético do velho vs. novo fica evidente - inclusive na simbologia visual usada. Nota-se um uso constante do contraluz, criando contrastes marcados entre branco-e-preto e causando sensações que remetem ao chiaroscuro. Tal recurso é o elemento central da fantástica seqüência de luta em Xangai, iluminada apenas pelos outdoors dos arranha-céus - um espetáculo de tirar o fôlego, em que se evidencia toda a excelência da direção fotográfica de Operação Skyfall.

Tais temáticas são simbolicamente abordadas por Q - não por coincidência, interpretado por um ator bem mais jovem, Ben Whishaw - em seu primeiro encontro com James Bond, quando ambos estão sentados lado a lado num museu, diante de um quadro de um barco de guerra sendo rebocado. Q comenta sobre a melancolia da finitude das coisas, enquanto Bond enxerga apenas "um navio grande" (a bloody big ship).

O agente secreto parece de início um tanto perdido quanto ao seu papel; apresenta-se para o serviço, mas não sabe responder a que veio. Do mesmo modo o público parece ter estado incerto em relação aos mais recentes filmes de 007 até o advento da seqüência iniciada com Cassino Royale.  Longe de merecerem qualquer crítica de caráter técnico, relativa ao elenco ou à execução, as películas de James Bond lançadas nos anos 1990 (com Pierce Brosnan no papel do agente secreto) parecem sofrer de um anacronismo arraigado e inescapável. 

Que direção a espionagem - e, conseqüentemente, os filmes de espionagem - deveriam seguir para escapar à obsolescência que parece inevitável diante do fim da Guerra Fria? 

O discurso de M (Judi Dench, sempre excelente no papel) no Parlamento - uma das mais emblemáticas cenas de Operação Skyfall - elucida brilhantemente a questão: os inimigos não são mais nações, não há mais um povo ou uma bandeira a se temer. Longe da clareza vivenciada nos tempos da Guerra Fria, que permitiam aos filmes um simplismo - que hoje pareceria aterrador - capaz de demonizar todo um povo ou nação, com o fim da URSS, a rendição da China ao capitalismo de mercado e a iminente derrocada dos regimes comunistas de Cuba e da Coreia do Norte,  os inimigos do presente são organizações terroristas que agem nas sombras, aproveitando-se da globalização de tal forma a dificilmente poderem ser identificadas com uma nação em particular.

Com Operação Skyfall, 007 retorna às origens e deixa provado, de forma definitiva, seu legado histórico inestimável. Em contraposição, parece cada vez mais distante de transformar-se em uma estática peça de museu. Ian Fleming certamente aprovaria.

IMDb: http://www.imdb.com/title/tt1074638/

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Girls | retrato de uma geração





Comparada diversas vezes a Sex & the City, a nova aposta da HBO - que estreou no Brasil em julho - compartilha com a série de Carrie Bradshaw pouco ou nada além do cenário: quatro amigas tentando levar a vida em Nova York.

Criada, dirigida e protagonizada por Lena Dunham, nova-iorquina de apenas 26 anos que também dirigiu o filme independente Tiny Furniture, Girls apresenta um conjunto de personagens inteiramente diferentes daquelas mostradas em Sex & the City - diferentes também, provavelmente, de tudo o que se tem visto em séries e sitcoms até agora.

Além da fotografia e do figurino irretocáveis, além da trilha sonora que expressa à perfeição a alternância entre a tênue melancolia e os momentos pontuais de euforia que perpassam o ânimo das personagens, o destaque da série vai para a personagem da própria Lena Dunham, chamada Hanna Horvath: uma aspirante a escritora de 20 e poucos anos vivendo naquela desconfortável zona cinza entre a adolescência e a maturidade. Um dos personagens, em uma frase épica de Girls, diz"não é vida adulta se seus pais ainda pagam sua conta de telefone". Em defesa da personagem-alvo é dito que ela paga metade da sua conta de telefone - o que dificilmente poderia ser mais simbólico.

Recém-formada em um mundo em crise, vivendo a tragédia da pós-modernidade - marcada justamente pelo vazio existencial causado pela falta de problemas reais, pela alienação forçada em vista do anacronismo de qualquer tipo de engajamento ideológico -, Hanna (por cujo papel Lena Dunham foi indicada ao Emmy) é o retrato individual de uma geração estagnada e improdutiva, consumida pela angústia da falta de objetivos ou perspectivas e consumidora compulsiva de diazepam e outros compostos.

O talento de Lena Dunham para retratar a angústia dessa geração é inegável. Apesar de Tiny Furniture (2010) ter resultado em um filme tão vazio quanto a vida e as perspectivas de sua personagem principal, um filme ao qual o espectador segue assistindo por inércia à espera de que algo aconteça (ainda que esse efeito seja uma proposital referência ao estado de ânimo da protagonista), percebe-se que a linguagem e genialidade que se veriam em Girls dois anos mais tarde já estavam sendo constituídas. São duas obras sobre o mesmo tema, das quais se pode afirmar que Tiny Furniture é claramente o rascunho e Girls é a obra final - uma obra-prima, a propósito.

Após sua estreia, este ano, Girls foi indicada a cinco Emmy, dos quais levou um - não por acaso, pelo elenco. A segunda temporada da série está prevista para janeiro de 2013.

Além disso, Lena Dunham fechou contrato no início deste mês com a editora americana Random House para a publicação de seu primeiro livro, Not That Kind of Girl: A Young Woman Tells You What She's Learned ("Não aquele tipo de garota: uma jovem conta a você o que ela aprendeu", em tradução direta). Ao que parece, Lena é uma bem-vinda exceção aos males do (nosso) século - que ela narra de maneira tão sublime.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Schiaparelli & Prada: Impossible Conversations




Uma série de oito curtas de (aprox.) 2 min dirigidos por Baz Luhrmann registrando trechos de uma conversa imaginária entre Elsa Schiaparelli e Miuccia Prada à mesa de jantar. Exibidos em maio de 2012, os curtas foram produzidos como parte da série Impossible Conversations do Metropolitan Museum of Art, em Nova York. 

Elsa Schiaparelli e Miuccia Prada, duas lendas da moda separadas pelo tempo - os anos 1930 e os dias atuais, respectivamente - mas unidas por inumeráveis proximidades criativas e conceituais, discutem à mesa variados assuntos desde suas trajetórias pessoais, suas preferências criativas até o papel da moda na identidade feminina.

Filmadas em um cenário sombrio, apenas as figuras de Judy Davis, interpretando Elsa Schiaparelli - estilista italiana nascida em 1890 famosa por suas criações em parceria com Salvador Dalí e Jean Cocteau -, e Miuccia Prada - estilista italiana contemporânea nascida em Milão, cuja grife foi responsável por diversas revoluções no prêt-à-porter -, interpretando a si própria, se destacam da penumbra - talvez como uma metáfora do papel transformador e elucidativo que ambas tiveram na história da moda.

Diretor dos longas Moulin Rouge, Romeu+Julieta e da refilmagem (em fase de pós-produção) do romance O Grande Gatsby, Baz Luhrmann realizou um trabalho impecável na produção desses curtas em tom de documentário confessional. A proposta, ainda que seu caráter soe fantástico em princípio, é executada com tal maestria que exige o mínimo da chamada suspensão de descrença, a ponto de os curtas exibirem em incontáveis momentos um ar do mais puro realismo documental - ainda que sem perder o humor espontâneo que marca a personalidade das duas estilistas, especialmente de Schiaparelli.

Ao fim do curta chamado Ugly Chic, Miuccia Prada menciona a globalização - ao que Elsa Schiaparelli responde, "O que é globalização?". E só então o espectador se dá conta do abismo temporal que separa as duas mulheres - e que justifica o título de Impossible Conversations -, tal é a proximidade criativa entre elas e a naturalidade com que fui a conversa.

Designers conhecidas por suas deliberadas provocações que tendiam a confrontar as convenções estabelecidas de beleza, glamour e feminilidade, o maior legado de Schiaparelli e Prada é, possivelmente, a completa subversão e conseqüente fluidez dos conceitos de bom e mau gosto imperantes na contemporaneidade.

Segue a lista dos curta-metragens, com seus respectivos links (com legenda em inglês):





Schiaparelli & Prada: Impossible Conversations
Ugly Chic
Naïf Chic


sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Revenge | épico de vingança




Revenge
 é para quem gosta de drama - como na definição do dicionário Houaiss, uma peça que representa ações da vida cotidiana permeadas por conflitos, tumulto e agitação. Em poucas palavras, é nisso que consiste a série: um bom drama, um épico de vingança no melhor estilo Dumas.

A plot: Emily Thorne (Emily VanCamp) aluga uma casa nos Hamptons por uma estação, aparentando ter nenhum outro objetivo além de aproveitar o verão. Logo se torna claro, entretando, que há muitas outras intenções ocultas sob sua visita. Seu verdadeiro nome é Amanda Clarke, e seu pai, David, de quem foi separada aos nove anos, foi condenado a prisão perpétua e assassinado por um crime que não cometeu, vítima de uma conspiração encabeçada pela família Grayson. 

Amanda - uma adorável sociopata, tão reservada e imprevisível que cada novo aspecto de sua personalidade ou de seu passado surpreende o espectador tanto quanto aos seus inimigos - voltou em busca de vingança, auxiliada por Nolan Ross (Gabriel Mann), gênio da tecnologia com problemas de socialização, cuja lealdade a David Clarke fez com que tomasse para si a tarefa de proteger Amanda e ajudá-la em seus planos.

A série, criada por Mike Kelley em 2011 e exibida pela ABC, é um sucesso de público e crítica, tendo sido comparada a uma versão moderna de O Conde de Montecristo

Apesar de fazer jus ao gênero série-novela americana, em cuja narrativa prevalecem as intrigas e reviravoltas do enredo sobre a estrutura e os tipos individuais, o ponto forte de Revenge está na construção dos personagens. 

Desconstruindo a tendência geral do espectador a sentir pena pela protagonista e experimentar repulsa por seus inimigos, a série demonstra extrema habilidade para criar laços de empatia entre espectador e personagens, e ainda assim surpreendê-lo a cada episódio com uma nova atitude inesperada - ou aparentemente injustificável - por parte dos últimos, para em seguida apresentar-lhes os motivos e reiniciar o ciclo. 

Ao mesmo tempo, apresentando as ações calculadas de Amanda/Emily em sua busca cega por vingança e justiça, é dada ao espectador a oportunidade de se indagar se tanto pragmatismo não torna a protagonista um tanto mais parecida com seus inimigos do que ela gostaria de cogitar.

Trata-se de uma série impecável, tanto do ponto de vista dos atores quanto da estrutura, sem mencionar os cenários extremamente bem escolhidos e a trilha sonora deliciosamente adequada. A seqüência que fecha o season finale da 1ª temporada é de tirar o fôlego. Em suma, a série atinge padrões de qualidade que não se viam no gênero desde Mildred Pierce. E a 2ª temporada (em andamento) promete não desapontar.