007 - Operação Skyfall, dirigido por Sam Mendes, é o 23º filme da franquia 007 (agente secreto britânico criado por Ian Fleming, cujos livros inauguraram na Grã-Bretanha dos anos 1950/60 uma febre comparável à beatlemania), iniciada com 007 Contra o Satânico Dr. No (1962), que este mês completa 50 anos.
Apesar de sua história ter tido início, a rigor, em 007 - Cassino Royale, que data de 2006 e é o primeiro filme da franquia com Daniel Craig no papel, o James Bond mostrado em 007 - Operação Skyfall parece conter em si a memória de toda a saga de 007.
De toda a memorabilia apresentada no filme, sobressaem as referências de Bond e M a equipamentos icônicos usados à exaustão na época de Sean Connery e Roger Moore - como canetas explosivas e assentos ejetores -, além de cenários clássicos como os subterrâneos de Londres, a sala com revestimento em couro de M e personagens-símbolo como a secretária Moneypenny; elementos que, de há tanto tempo sem menção alguma, adquirem um caráter quase que de easter eggs nesse 23º filme de Bond - e deliciam os fãs da franquia.
O discurso autorreferente de Operação Skyfall não se restringe, no entanto, a elementos periféricos à trama; está, na verdade, inserido no tema central desenvolvido no filme: fundamentalmente, uma discussão sobre a obsolescência do serviço secreto britânico (MI6), da espionagem e do próprio 007 individualmente e enquanto personagem simbólico.
Durante todos os 143 min de filme, o discurso dialético do velho vs. novo fica evidente - inclusive na simbologia visual usada. Nota-se um uso constante do contraluz, criando contrastes marcados entre branco-e-preto e causando sensações que remetem ao chiaroscuro. Tal recurso é o elemento central da fantástica seqüência de luta em Xangai, iluminada apenas pelos outdoors dos arranha-céus - um espetáculo de tirar o fôlego, em que se evidencia toda a excelência da direção fotográfica de Operação Skyfall.
Tais temáticas são simbolicamente abordadas por Q - não por coincidência, interpretado por um ator bem mais jovem, Ben Whishaw - em seu primeiro encontro com James Bond, quando ambos estão sentados lado a lado num museu, diante de um quadro de um barco de guerra sendo rebocado. Q comenta sobre a melancolia da finitude das coisas, enquanto Bond enxerga apenas "um navio grande" (a bloody big ship).
O agente secreto parece de início um tanto perdido quanto ao seu papel; apresenta-se para o serviço, mas não sabe responder a que veio. Do mesmo modo o público parece ter estado incerto em relação aos mais recentes filmes de 007 até o advento da seqüência iniciada com Cassino Royale. Longe de merecerem qualquer crítica de caráter técnico, relativa ao elenco ou à execução, as películas de James Bond lançadas nos anos 1990 (com Pierce Brosnan no papel do agente secreto) parecem sofrer de um anacronismo arraigado e inescapável.
Que direção a espionagem - e, conseqüentemente, os filmes de espionagem - deveriam seguir para escapar à obsolescência que parece inevitável diante do fim da Guerra Fria?
O discurso de M (Judi Dench, sempre excelente no papel) no Parlamento - uma das mais emblemáticas cenas de Operação Skyfall - elucida brilhantemente a questão: os inimigos não são mais nações, não há mais um povo ou uma bandeira a se temer. Longe da clareza vivenciada nos tempos da Guerra Fria, que permitiam aos filmes um simplismo - que hoje pareceria aterrador - capaz de demonizar todo um povo ou nação, com o fim da URSS, a rendição da China ao capitalismo de mercado e a iminente derrocada dos regimes comunistas de Cuba e da Coreia do Norte, os inimigos do presente são organizações terroristas que agem nas sombras, aproveitando-se da globalização de tal forma a dificilmente poderem ser identificadas com uma nação em particular.
Com Operação Skyfall, 007 retorna às origens e deixa provado, de forma definitiva, seu legado histórico inestimável. Em contraposição, parece cada vez mais distante de transformar-se em uma estática peça de museu. Ian Fleming certamente aprovaria.
IMDb: http://www.imdb.com/title/tt1074638/
Lia, Lia, incrível, a postagem. Quero ver o filme. Só não sou muito fã do 007. Para mim, que não entendo muito de cinema, ainda é aquele filme que capta pelas cenas de ação, tiros e golpes impossíveis. Mas vou tentar atentar para essa simbologia que você explicitou =)
ResponderExcluirLia!
ResponderExcluirNunca acompanhei a série 007 e não entendo muito sobre tal progressão dos personagens, mas admiro suas notas sobre o assunto. *apaixonadaporseustextos<3*
Excelente matéria. Abordando de maneira mais técnica e menos passional, considero de longe uma das melhores críticas que já li. Basicamente imparcial, denota em esparsos momentos o apreço da resenhista, sutil em sua preferência e cujo vocabulário demonstra conhecimento do assunto sem sugerir arrogância.
ResponderExcluirBelo texto!
Sou mais um a reforçar o coro de que a matéria é excelente. É interessante notar como a simplicidade de personalidade da personagem pode ser um atributo que atrai o telespectador e ao mesmo tempo mantém ele inatingível no que tange sua persona na tela. A renovação da franquia com Cassino Royale não serviu somente para situar o espião em um mundo "pós Bourne" mas também serviu de plataforma para reutilizar um fator a muito esquecido nos filmes (e que tem papel importante no livro): A identificação do telespectador com os erros do Bond. Quanto mais blasé cool e descolado a personagem ficava mais situações absurdas (cof cof surfar em uma onda de gelo derretido) tinham de ser criadas para dar um senso de perigo à situação. E se você precisar criar situações mais absurdas do que uma mulher sendo pintada de ouro é porque você está em uma sinuca de bico.
ResponderExcluirObrigada pelos elogios. (:
ExcluirE concordo muito com a observação. Acredito ser exatamente isso o que o novo direcionamento dado à franquia e a interpretação de Daniel Craig têm feito por James Bond: torná-lo mais real e possibilitar uma identificação maior do público - como era, na verdade, o intento de Ian Fleming nos livros. A interpretação de Pierce Brosnan, apesar de tecnicamente impecável, criou um James Bond tão sofisticado que se distanciou do público e do próprio conceito do personagem.